2017 - Hora 23 Bolívia

Escrito por Julia . Posted in Entrevistas

E: Muito prazer, muito obrigada pela visita. Como já dizíamos, você com muito estudo e com muito trabalho tem uma carreira de muito sucesso, uma das grandes estrelas do rock. Muitas pessoas te reconhecem, não só na Europa como aqui, tem muitos seguidores te assistindo.

T: Sim, sim, estou muito feliz como artista, claro que é muito trabalho, nada vem sem trabalho, tem que trabalhar quase vinte e quatro horas por dia para ter uma carreira internacional, mas me sinto privilegiada de poder trabalhar com música, que é meu amor, que foi meu primeiro amor na vida, então é bom poder seguir sonhando com a música.

E: Música foi seu primeiro amor, e vamos falar mais sobre a sua vida ainda, mas você tem outros amores, né? Um argentino...

T: Sim! Sim, e uma menininha de cinco anos, minha filha...

E: Queremos saber mais sobre sua vida, pelo que eu entendi foi sua mãe que primeiramente percebeu seu talento para o canto, quando você era criança, tinha três anos e começou a cantar em uma reunião familiar...

T: Exatamente. Foi minha mãe, mas eu também tenho um irmão maior, sete anos mais velho, e ele tocava bateria, tocava guitarra, cantava, então em casa e na minha família eu sempre estive cercada por música, escutando música, escutando meu irmão, então eu era uma menina muito interessada por música. Comecei a tocar piano quando tinha seis anos com um professor particular e aí comecei a estudar música clássica. Foi aí que comecei meu caminho e segui nele.

E: Já te vimos como cantora interpretando várias músicas em Igrejas, inclusive.

T: Sim, sim, e até hoje faço turnês em Igrejas. Na Europa, ou no meu país natal, é muito comum se fazer concertos em Igrejas, de Natal ou de música clássica no geral. Eu faço esses muito, e também com orquestra sinfônica, então eu tenho uma carreira bem ampla entre a música clássica e o rock, há uma harmonia entre os dois.

E: E aí Tarja, com essa voz privilegiada, se torna cantora dessa banda muito conhecida chamada Nightwish. Foram nove anos com eles?

T: Nove anos... Sabe que eu nunca tinha pensando que ia cantar com uma banda de metal. Pensei que seria cantora lírica e era isso. Era o que eu pensava, meus dias foram trancada no quarto praticando horas e horas para isso, então foi uma surpresa enorme pra mim, me convidaram pra cantar um demo, eu cantei, e minha vida mudou completamente.

E: Você era a imagem principal dessa banda que era muito conhecida na Europa e passou a ser muito conhecida também em outros continentes.

T: Certamente, o sucesso veio rápido, muito rápido.

E: E em que momento Tarja Turunen decide ser solista?

T: Uau, já faz... doze anos. Estou celebrando meus vinte anos na música.

E: E como você analisa esses vinte anos? tanto sendo parte de uma banda como em sua trajetória como artista solo.

T: Fiz muitas colaborações lindas, muitas viagens à países que nunca pensei em conhecer, como a Bolívia, por exemplo! Estou muito feliz hoje como artista porque tenho uma carreira que consiste... eu componho, eu produzo meus álbuns, eu faço tudo! De tudo! É um caminho longo, mas sempre aprendendo, de pouco em pouco. Foi incrível, mas eu estava muito nervosa no começo da minha carreira solo. Não sabia se estava preparada pra compor, se tinha tudo que era necessário pra ter uma carreira internacional, mas graças a deus deu tudo certo.

E: O que você já conhecia de nosso país? e o que você mais gostaria de conhecer nele?

T: Eu gostaria de conhecer mais a natureza da Bolívia, porque a natureza me inspira muito compor. E vocês tem de tudo! Chegamos ontem em La Paz e... (risos) Não, já estou perdida, é a altura! Chegamos hoje, às cinco da manhã, e estava muito nublado, quase não dava pra enxergar, parecia um filme, muito lindo ver a cidade assim! E aí quando saiu o sol, nossa, linda!

E: Você esteve em muitos países, em muitos shows, com muitos fãs. No seu primeiro show, na primeira vez que se apresentou, imagino que tenha sido um momento de ansiedade, de nervos, mas também de felicidade, de expectativa. Para uma artista agora como você, que já subiu em milhares de palcos, o que te faz não perder esse sentimento da primeira vez?

T: Esse coração. Eu canto com a minha alma, com meu coração. Não tem outro jeito. Se eu perco isso eu perco a música, perco a sensação da música. Eu tenho que estar um pouco nervosa toda vez antes de subir no palco, isso me dá concentração e motivação para ir. E o público. É uma adrenalina. Mas as pessoas, os fãs que me esperam, é por isso que estou aqui, sem eles não estaria.

E: Em que lugar do mundo você sente uma maior conexão com os fãs?

T: Isso acontece em muitos países, tenho muita sorte nesse sentido. Mas há diferenças culturais, é um reflexo das pessoas, é óbvio. Se vai aos países nórdicos da Europa, as pessoas estão mais tímidas, mais quietas, não te respondem tanto, se vai um pouco mais para o sul da Europa já sente... mais latino, mais caloroso. Se vai à américa do sul ou central é... muita paixão. Acho que todos os artistas adoram vir aqui tocar porque o público te dá muito amor e energia para seguir.

E: Você passou por isso por exemplo com os Fãs da Argentina. Você viveu lá por quantos anos?

T: Quase oito anos permanentemente.

E: Oito anos tão perto de nós! Como nunca te vimos antes? mas que bom que está aqui agora. O que você espera do público Boliviano?

T: Paixão, amor, paixão... Muito amor. O que eles já me dão faz muitos anos. Espero me divertir muito com vocês amanhã.

E: Qual a maior loucura que um fã já fez por você, Tarja?

T: (risos) Um monte de coisas! Alguns fazem tatuagens do meu rosto... Nomearam estrelas! Tenho três estrelas no céu com meu nome de formas diferentes (risos). Tenho um tubarão branco no Canadá do qual fui feita madrinha. Coisas assim!

E: Você além de toda sua carreira é uma pessoa que cresceu estudando muito. Para os espectadores que talvez não saibam, ela é poliglota. Quantos idiomas fala?

T: Cinco. Alemão, Espanhol, Finlandês, Inglês e Sueco. Todos mal!

E: Eu me inteirei bastante de sua infância. Você era uma ótima aluna, com algumas das melhores notas...

T: Sim, isso sim...Um pouco perfeccionista (risos).

E: E chegou um momento em que as colegas de Tarja por algum motivo praticaram algo que podemos considerar um bullying, um comportamento que cresceu muito mundialmente e também em nosso país, temos dados alarmantes disso. Você foi vítima disso na sua infância, Tarja?

T: Vítima por muitos anos. Foi uma época terrível da minha vida. Foi durante o primário, por cinco anos. Os primeiros cinco anos. Era algo que, eu era uma menina... A música foi minha saída.

E: Foi a música que te ajudou a enfrentar a situação e superar

T: Exatamente. Foi onde eu coloquei toda minha alma. Era tudo que eu tinha. Ok, minha família e... Mas a escola foi terrível. Terrível. Para ir todos os dias eu tinha problemas no estômago, problemas que ainda tenho hoje e que acredito que venham dali. Coisas que aconteceram depois, eu ainda tenho um pouco de medo de gente, de responder alguém mal, quero sempre a melhor, fazer com que as pessoas se sintam bem comigo... São todas coisas que vem dali. É realmente horrível porque você é um menino ou menina e não sabe muito sobre a vida ainda, é muito jovem, ainda está crescendo, aprendendo e... não pode respirar, não pode se sentir bem, não pode estar livre. Sofri muito.

E: Tem muitas crianças e adolescentes passando por isso, e isso pode ter consequências muito graves, até suicídios...

T: Exatamente.

E: Àqueles que nos assistem agora, que podem ser jovens passando por isso, ou pais de jovens passando por isso, o que você diria? que mensagem passaria, tendo passado por isso?

T: Eu me sinto culpada nesse sentido por não ter enfrentado as pessoas que me fizeram isso. Nem os professores, porque não acreditaram em mim... É uma força interior que tem que ter, com seus pais, de enfrentar as pessoas. Se não for possível por si, com seus pais. Mas alguém tem que te escutar. O silêncio é o pior que se pode fazer.

E: Vamos falar um pouco mais de sua história. Em determinado momento você foi apontada, por toda sua experiência, como jurada de um reality (The Voice of Finland). E você pode aconselhar esses jovens sobre suas carreiras. Se você fosse empresária de uma banda de rock, o que aconselharia? quais os pontos importantes que precisa ter uma banda de rock?

T: Uau, que pergunta difícil!

E: Talvez relacionado com o que você procurava nesse show também do qual era Jurada...Um reality muito importante do seu país.

T: Sim, o mais visto da televisão de lá. Mas eu não procurava cantores perfeitos, procurava cantores com personalidade, personagens, personalidade na voz, como... a alma que soa quando canta. Você pode cantar com a técnica perfeita, mas se você não toca o público...

E: O que chamamos aqui de um "anjo" da voz...

T: Sim. Se você tem isso, cuide. Ou do "diamante", como quiser chama-lo. É realmente importante. Seguir com seu próprio caminho... Toda a música já foi escrita muitas vezes. É difícil escrever músicas diferentes hoje porque tudo já foi escrito, mas [é importante] cuidar de ser original. Fazer que as pessoas lembrem de você. Copiar é fácil, você abre o youtube e "ah, quero fazer... isso. Compor uma canção tipo essa", isso já existe. Fechar-se para o seu arredor e conseguir aquilo que está no seu interior, é daí que sai tudo.

E: Você teve esse "anjo", esse talento. Além disso o que mais considera que foram bases para o seu sucesso?

T: Muito trabalho. E não saltar muito às nuvens, manter meus pés firmes no chão. É a única forma. Pode-se tentar ser perfeita, mas nunca vai ser perfeita. É a realidade. Sempre tem alguém melhor que você. É assim.

E: Sim. Também queremos saber da sua vida fora dos palcos, suas outras atividades. O que você gosta de fazer?

T: Muito esporte! Como cinco vezes por semana, exercício físico!

E: De segunda à sexta? Que tipo de exercícios?

T: Ioga, tenho um personal trainer... Ioga me ajuda muito para cantar, me ajuda a me abrir, a respirar melhor. Um personal trainer que me mata duas vezes por semana (risos)... Eu corro várias vezes por semana, nas montanhas. Gosto de estar sozinha com a natureza, mais ninguém, nem música, só corro, nem me importo se chover.  E depois de tudo isso eu ainda sou mãe de uma menina de cinco anos, que também dá um trabalho. Minha filha já vai na escola, no primário, já fala três idiomas, vai ser pior que eu! (risos)

E: Está seguindo seus passos! O lado musical também?

T: Sim! Ela já toca piano, já começou a tocar, ela que quis começar, quando tinha quatro aninhos... Minha vida é com a minha família. Quando estou em casa, sou mãe, dona de casa. Gosto de limpar, manter meu lugar, relaxar, e quando vou [para as tours], vou.

E: Muito bom conhecer esse outro lado de Tarja, como pessoa, fora dos palcos, das gravações, dos shows. Muito obrigada por esta entrevista, estamos chegando no final dela. Tem uma frase muito conhecida aqui nesse meio que é "sexo, drogas e rock&roll".

T: (risos) Meh. Não!

E: Muito fora da realidade?

T: Muito fora da realidade. Não sei, talvez tenha sido nos anos 80, mas hoje em dia... não existe.

E: Alguma mensagem para os fãs da Bolívia para amanhã?

T: Scream Bolívia, vamos nos ver amanhã! Os espero! Amo vocês!