2013 - Metal Itália

Escrito por Myla. Posted in Entrevistas

Encontramos a cantora Tarja Turunen em um hotel de Milão e a encontramos de ótimo humor, feliz pela sua própria vida privada e pela boa recepção de seu novo álbum. Tarja se demonstrou aberta à conversa e não evitando responder as nossas perguntas na ocasião, disponibilizando para a entrevista todo o tempo de que precisássemos, e isso fez com que estas crescessem durante a agradável entrevista...

 Bom, Tarja, porque você não começa a entrevista falando do seu novo álbum, “Colours In The Dark”?
“Certo. É fundamentalmente o álbum que devia ser, neste ponto da minha carreira solo. Tive de aprender muito nestes anos como solista, para o bem e para o mal, e frequentemente nos anos passados pensei que não poderia ter um dia chegado ao ponto no qual estou hoje. Tive muitas experiências positivas e negativas também, e todas essas experiências acabaram na minha música. “Colours in the Dark” é muito rico em cores, sombras, de aspectos que se aprofundam e que não se captam à primeira ouvida. É fundamentalmente o disco mais maduro e completo que já fiz na minha carreira solista, porquê hoje são conseqüência da música que quero fazer e da música que posso fazer. Em comparação aos discos anteriores, “Colours in the Dark” é menos dominado por guitarras pesadas, menos hard e raivoso, e possui menos sinfonias, mas é mais elegante e também mais complexo do que os outros. O título se refere ao fato de que cada cor é única e distinta, mas no interior do negro se pode encontrar a todas, cada uma com suas próprias características.”

Depois de todos estes anos e três discos com uma formação bem estável, Tarja ainda é considerada como uma artista solista ou é mais como uma espécie de banda?
“Sou uma artista solista e assim me considero. Esta é a decisão tomada e é uma decisão definitiva. Não haverá mais uma banda verdadeira e própria na minha carreira, porque solo sei o que quero, e solo sei como o quero. É verdade, com Mike e os outros com o tempo se criou uma forte união, uma harmonia que eu não imaginava poder encontrar; eles me dão apoio, me ajudam em tudo e para tudo, me dão conselhos, me consolam quando algo dá errado e comemoram comigo quando estou feliz, contribuem também o processo de texturização dos samples, mas toda a responsabilidade está nas minhas mãos. Sou eu sozinha no comando. Não quero mais os problemas de ego que se criam em uma banda. Dou aos rapazes toda a liberdade de tomarem os holofotes, como é justo que aconteça, mas ao fim as maiores honras me esperam; tudo está comigo, o estresse é meu, a tensão é minha. Seria mais simples ser membro de uma banda, na qual as tensões se dividem para cinco ou seis, mas não é o que eu quero.

Musicalmente falando, quais são as principais diferenças entre “Colours in the Dark” e os álbuns anteriores?
“Como eu estava dizendo antes, este álbum é menos pesado mas também mais pesquisado, mais elegante. É muito mais complexo do que os discos anteriores, porquê quis dar um passo à frente no ponto de vista musical, mas isso não o transforma em um álbum difícil ou chato.”

Quando se tornar mãe mudou a sua abordagem da música?
“Eu estava grávida por toda a última parte da turnê teatral, quando comecei a construir a base para o disco, e quando começamos a trabalhar seriamente no disco Naomi já tinha nascido, mas não acho que isso influenciou o meu método de trabalho. Mas do que qualquer outra coisa, isso influenciou positivamente o meu humor enquanto eu escrevia, e isto se pode perceber. Agora, com as turnês promocionais e mais a frente com as turnês verdadeiras, Naomi está sempre comigo. Isto é, quando estou empenhada ela está com o meu marido, obviamente, mas ela está sempre viajando conosco. Eu tinha um pouco de medo no começo, mas o meu marido me deu força, e fez passar cada temor. Isso acontece também porque ele se demonstrou absolutamente capaz de cuidar da nossa filha: ele é realmente um ótimo pai. E ela é uma ótima menina, e já canta, e a coloquei como convidada em algumas canções. Concluindo, se tornar mãe é o presente mais importante que a vida pode dar a uma mulher.”

Porquê você decidiu não colocar “Into the Sun” na versão regular do álbum?
“Veja, ‘Into the Sun’ é uma canção muito bela, mas foi escrita muito antes de todas as outras que você pode ouvir no CD. Certo, é verdade, durante a última turnê ela foi apresentada como inédita do álbum seguinte, mas a minha impressão era que ela não se ligou bem com o material escrito depois. Por isso decidimos incluir esta canção nas edições limitadas como bônus, para não interromper o humor que escuto no álbum inteiro.”

O que você me diz das várias edições nas quais o álbum sairá?
“Serão várias as edições, quatro para ser precisa, e nem todas estarão disponíveis em todos os países. Haverá a standard, uma especial com algumas bônus track, uma outra em vinil e uma em versão digibox com uma série de gadgets como camiseta, pôster e outros. A minha nova gravadora está muito convencida da necessidade diso, porque sabe que é o que os fãs querem; existem fãs que querem apenas o CD base, aos quais não importa os gadgets e outras coisas, e existem os fãs que querem tudo aquilo que for possível dar a eles. Você deve fazer ofertas sob medida para os diferentes tipos de fã que você tem.”

É hora de falar da mudança de gravadora, da Universal para a Earmusic. O que você me diz disso?
“Finalmente eu e a Universal separamos nossos caminhos. O problema era simples: eu não era prioridade para eles, e frequentemente o meu trabalho os deixava ressentidos. Agora finalmente tenho uma gravadora que se preocupa com aquilo que penso, com aquilo que quero fazer, de como vão os produtos que levam o meu nome. Estou muito satisfeita com a mudança.”

Como foi a recente turnê orquestral na companhia de Mike Terrana?
“Foi realmente ótima. A resposta do público foi fantástica, além de toda e qualquer previsão. Eu me diverti bastante.”

Uma coisa que me espanta é a extrema diversidade entre o teu estilo, tão calmo e elegante, e o de Terrana, muito animalesco. Como você decidiu há anos escolher logo a ele para uma turnê com você?
“Mike é um verdadeiro monstro, mais musicalmente do que visivelmente, mas desta segunda parte não falaremos, certo (risos)? Adoro os álbuns nos quais Mike tocou, e adoro o seu modo de tocar bateria, bem selvagem mas também incrivelmente genial. Ele tocou com Malmsteen, com o Rage, com Axel Rudi Pell, e agora toca comigo; isso é realmente fantástico.”

Fale agora, por favor, da arte da capa do disco?
“A foto é muito representativa daquilo que é o conteúdo do disco, uma miríade de cores unidas de maneira compacta para um efeito ainda melhor. Gosto muito do impacto visual que dá.”

De que falam as letras do álbum?
“Para escrever as letras das minhas músicas, me baseio sempre na vida real, nas minhas experiências e nas das pessoas que me são queridas. Não há um tema comum para as letras, a não ser o fato de que são absolutamente pessoais e sinceras.”

Você nunca pensou em trabalhar com um álbum conceitual?
“De vez em quando sim, mas penso que ainda não sou tão boa compositora para um trabalho assim tão difícil. Talvez um dia eu faça um álbum conceitual, mas por agora é melhor deixar isto para quem o sabe fazer.”

Qual canção é, para você, a melhor representante daquilo que Tarja é hoje em dia?
“Sinceramente, ‘Victim of Ritual’. É uma música que mostra muitas facetas, assim como o meu mundo e minha personalidade têm muitas facetas. E assim ela une dois mundos que eu adoro, o rock e a música clássica.”

E qual é a sua música favorita?
“Não tenho uma canção favorita no álbum. As canções que escrevo são todas como filhas minhas, e não se pode escolher o favorito entre dois filhos.”

Em “Mystique Voyage” você usa três línguas ao mesmo tempo. Como você optou por essa decisão?
“Me pareceu um desafio interessante, a parte instrumental da música era muito boa. Creio que o resultado obtido foi muito bom.”

Porquê você escolheu justo “Darkness” de Peter Gabriel como cover para gravar no “Colours in the Dark”?
“Eu amo Peter Gabriel, é um dos meus artistas favoritos. Busco sempre fazer covers de músicas cantadas originalmente com vozes masculinas, porque nunca é bonito colocar em confronto duas vozes femininas, porque as comparações começam assim que a música é lançada. Foi um cover muito difícil de fazer, mas acho que o resultado foi bom. Como dizia, amo Peter Gabriel, adoro a forma como ele escreve, amo como ele faz com que seus músicos toquem, amo como ele produz seus álbuns.”

Quais são as suas influências mais importantes como cantora?
“Eu diria que não sou realmente influenciada por um único artista, mas sim que sou influenciada por um tipo de música. Assim, sendo uma artista que trabalha com metal, as minhas raízes estão na música clássica e lírica, e busco sempre usar o meu conhecimento desses dois mundos para personalizar ao máximo os meus trabalhos.”

...e você acha que é uma boa referência e inspiração para jovens cantores?
“Espero que sim, de verdade.  Se não for assim, terei desperdiçado muito tempo. Eu cresci com a cultura do exercício contínuo, do estudo contínuo do canto, para aperfeiçoar sempre o meu estilo e reforçar a minha voz. Se uma jovem cantora pudesse absorver um único elemento de mim, preferiria que fosse a capacidade de sacrifício no estudo do canto.”

O que você pensa quando vê na TV cantoras como Madonna ou Lady Gaga, tecnicamente menos preparadas do que você, que tiveram um sucesso muito superior ao seu?
“Veja, quanto menos preparada e menos tiver estudado, mais sucesso você encontra com o público e com a televisão; é uma dura regra, mas infelizmente sempre parece ser assim. Mas é como uma moeda de duas faces, porque se o sucesso chega do nada, frequentemente volta ao nada rapidamente. Eu cresci com uma cultura musical que me incentiva sempre a incrementar o estudo e não saberia viver de maneira diferente, e prefiro este modo de trabalho.”

Haverá um “Act 2” no futuro?
“Com certeza, o tempo necessário para que haja um outro álbum, ao menos mais um, do qual trarei novas músicas, chegará. Depois do lançamento do CD, em outubro sairemos para uma turnê que durará dois anos, e visto que estaremos dois anos juntos com a banda completa, acho que um outro álbum será escrito na estrada.”

A sua turnê passará pela Itália?
“Certamente! Não dá pra ir pra uma turnê sem passar na Itália! Eu amo a Itália! Talvez ao longo de dois anos, passemos aí mais de uma vez.”

Como nasceu a ideia da turnê nos teatros?
“Sempre quis me apresentar em teatros. Sei que para uma rockstar é impensável a ideia de se apresentar para um público sentado comodamente, mas quando você é o espectador em um teatro, vê tudo muito bem. E como dizer: ‘Meus amigos, querem me ver? Aqui estou, assim todos podem me ver bem!’. No teatro não há a necessidade de se espremer para chegar para frente e ver melhor.”

Eu fui ao concerto que você teve em Milão no Teatro Della Luna. Uma coisa na qual não consegui acreditar foi quando você desceu do palco e começou a cantar andando entre as pessoas.
“Oh, Deus, foi fantástico. Eu o fiz em todos os dias e assim as pessoas se levantavam e me esperavam dessa forma (se levanta da cadeira e imita uma expressão de estupor ao limite do cômico). Ninguém esperava isso, assim o efeito foi ao máximo!”

Mas você não teve medo de descer entre as pessoas? Não teve medo de que alguém pudesse te prejudicar? Além do mais, você ainda estava grávida...
“Os meus fãs me querem bem, nenhum deles me faria mal. Certo, muitas vezes aconteceram momentos delicados durante esta fase do show, algo aconteceu sempre ao redor, mas ninguém iria ao meu show, pagando ingresso, para me prejudicar. Disso tenho certeza, e acredito ter mostrado aos fãs o quanto gosto deles e o quanto confio neles. Além do mais, nos meus shows amo ver a emoção nos olhos dos meus fãs, e esta foi a forma mais direta de fazê-lo.

Você é incrivelmente amada, sobretudo entre as moças mais jovens. Assisti a todos os seus concertos solos na Itália, e todas as vezes vi moças jogando rosas para você. Como você explica este amor tão forte do seu público feminino?
“Estou honrada de ter um público tão incrível e fiel, e isto vale para todas as partes do mundo. Acredito eu a explicação derive do fato de que sempre fui honesta com meus fãs, sempre cantei com tudo no meu coração, toda a minha paixão e toda a minha alma. A sinceridade sempre traz frutos. Sobre você observar que a maior parte do meu público seja do sexo feminino, acredito que isso se deva ao fato de eu ser uma mulher assim como elas e não busco me mostrar superior em relação a elas, e elas conseguem se identificar muito comigo.”

Você é finlandesa, e muitas bandas famosas do gênero vêm da Finlândia. Falo de bandas como Stratovarius, Sonata Arctica, Lordi, Turisas, The 69 Eyes, Children of Bodom e muitas outras. Quais fatores, de acordo com você, contribuem para dar às bandas finlandesas um quê a mais?
“Desde pequenos na Finlândia nos ensinam o valor da arte, do tratamento dos detalhes e nos ensinam que se você quer ter sucesso, é necessário que haja aplicação constante. Além do mais, nosso inverno é longo e rígido, assim ficamos condenados a passar muito tempo fechados em casa. Muitos aproveitam esse tempo passado em casa para melhorar o uso de um instrumento musical.”

Fiz a mesma pergunta a Alexi Laiho e ele me disse que na Finlândia vocês têm bons ares.
“(ri com gosto) Sim, provavelmente é este o segredo!”

Como você trata a sua voz durante as turnês longas?
“Eu me preparo fisicamente muito antes de sair em turnê, e enquanto estou afastada busco não me expor ao frio nunca, dormir o suficiente e estar sempre em ambientes saudáveis.”

O quanto a elegância é essencial para você?
“É essencial, não posso deixar por menos.”

Você tem também uma linha de jóias, certo?
“Sim, jóias e canções me dão a mesma emoção.”

Sei que você não é católica, mas ainda assim você vive na Argentina. O que você pensa do novo Papa?
“Bem, não posso fazer nada além de desejar os meus melhores augúrios para a sua missão. E além do mais, torcemos pelo mesmo time de futebol!”

OK, agora direi o nome de cinco das suas colegas mais famosas. Você deve me dizer uma palavra para cada uma, de modo a expor a sua opinião sobre a cantora citada.
“OK, vamos fazer isso!”

Doro.
“Lady!”

Sharon Den Adel.
“Nova amiga.”

Angela Gossow.
“Pesada!”

Simone Simons.
“Muito frágil.”

Anneke Van Giersbergen.
“Voz imensa!”

O que você pensa das novas mídias para promoverem a sua banda?
“São importantíssimas, principalmente para que eu tenha contato com os fãs.”

Boa composição, boa técnica instrumental, boa produção, boa distribuição: o que transforma um álbum em um sucesso?
“Como te disse antes, exercício, pesquisa, preparação.”

OK, Tarja, a entrevista acabou. Quer acrescentar algo para concluir?
“Obrigada a todos os meus fãs. Amo a todos vocês com tudo de mim.”